Assimilo passagens da vida como cenas de filmes, para construir linhas temporais mais longas, observar os acontecimentos em perspectiva, para ver se aparecem: causa e efeito. Me conto minha história, enquanto investigo padrões que apontem sentido para perguntas. Ao narrativizar a vida escrevo a história que quero ter, permitindo edições sutis, desde que amarrem algumas pontas soltas.
Ser uma adulta preocupada, tendo sido adolescente confiante é um desses enredos sem aparentes conexões. A concordância entre ingenuidade e coragem de quem fui, punha qualquer chance que tivesse, a um passo de acontecer. Quero resgatar a insubordinação frente aos problemas, mas não consigo pensar como na época. Quais minhas motivações? O que me mantinha perseguindo objetivos? Onde foi a curiosidade? Como se manter procurando? Devia me firmar em promessas bonitas de uma mente sem bloqueios.
Se pudesse acessar esses traços da minha personalidade, teria dificuldade de manter a visão simplista de antes, já que reduzia os significados para que coubessem em minha compreensão. Mesmo assim, me coço por saber o que aquela garota usava como incentivo. Eu, metida a anti-protagonista, me engano para não ter vontades, agarrada ao desejo de me anular, não me envolver tanto, não esperar muito — da própria esperança — que é também um tipo de espera, feita de otimismo. Não é assim a minha espera. É um espaço que se alarga dentro de mim. Um buraco onde os quereres que não banco ficam.
A espera é uma sentença perpétua. Contra ela não adianta lutar, a aceito como um respiro bem-vindo. Invento um quadro menos duradouro: faço um pouco e espero, tento, espero; digo e espero. Não quero que aconteça rápido. Sento confortável em meu próprio tempo, eu mais uma xícara de café. Me oriento como se o tempo fosse abundante, o subjetivo, que orquestra todos os outros.
Pensando nisso resolvi escrever hoje. Dediquei meu tempo para guardar o momento que esses pensamentos me encontraram. Como tempo dado é tempo ganho. Os deixo com algumas horas para pensar, fazer aquilo que não cabia na agenda.
Além do mais, escrever também é colecionar recomendações para mim mesma. Desenhar um mapa para as emboscadas que me meto. Reconhecer ciclos viciosos, e, talvez parar alguns vórtices que iniciam quando me repito. Os problemas só ficam mais difíceis. Melhor reunir toda a ajuda que possa precisar.
As histórias apanhadas de algum lugar, quando ordenadas são cápsulas do tempo. Vivendo apática meu texto terá menos camadas. Menos sentimentos para visitar por linhas. Os sonhos são histórias que a gente vivencia antes de abrir os olhos, ou quando estamos meio vivos, — já reparou que tudo parece nebuloso, e nos sentimos entorpecidos quando não estamos, de fato, despertos? — Imagina vivê-los, senti-los? A vida há de ser sonho.
Viver é o que resta. O passado é um presente que foi, o futuro: o presente reunido; Então, se presente é a síntese. O começo, o fim e o meio. Nada de correr, a linha de chegada é uma única. Me demoro para não cruzá-la.
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